A solidão é o toque de requinte que povoa o quarto neste momento. Já é madrugada, o relógio precisamente me fala que faltam quatro minutos para as duas da manhã. Deixo apenas a luminária acesa e a penumbra aumenta a sensação inquietante de falta e desejo.
Vou à cozinha e preparo um café bem forte para espantar o frio que entra pelas frestas da janela e que principiam a congelar meu cálido coração. O silêncio é música para meus ouvidos cansados de tanta atribulação e bagunça. A madrugada é o momento que mais gosto por melhor poder sentir tudo o que insiste em querer me enlouquecer.
Por puro impulso, ligo a televisão, mas, desligo-a em seguida. Preciso abandonar esta mania idiota, senão corro o risco de ser taxado de louco. Engraçado, mas mesmo estando sozinho em casa sempre tenho a sensação de que há alguém me vigiando prontinho para aproveitar a primeira oportunidade para contar ao mundo sobre a minha loucura. Mas já vou logo avisando: eu não sou louco.
Talvez eu até seja um pouco louco sim, afinal, todo mundo tem as suas maluquices, até mesmo porque o conceito de loucura é muito subjetivo, pois o que é loucura pra você pode não o ser para mim, mas mesmo assim prefiro parecer que sou normal como todo mundo, ou como a maioria pelo menos, ou melhor, como todos aqueles que pensam que são mesmo normais.
Torno a encher meu copo com café e percebo que a garrafa já está quase vazia. “Será que mais alguém está tomando do meu café?”, penso. Eu sei... Eu sei. Estou sozinho em casa e por isso não há a mínima possibilidade de alguém ter tomado do meu café, eu não estou louco, preciso parar de tomar tanto café. Quem sabe se eu tomasse menos café, conseguiria dormir mais durante a noite? Se bem que eu não acredito nessa história de que o café tire o sono de alguém, pois se isso fosse verdade o pessoal da repartição não dormiria tanto no horário do serviço, tendo em vista que eles tomam café o dia inteiro.
Para ser bem sincero, não é o café que me tira o sono... Observo a noite pela janela do meu quarto e sinto a brisa gélida da madrugada espetando-me a garganta. Engraçado como não há carros, sombras, gemidos em parte alguma. Nem mesmo as corujas que sempre aparecem para me velar o sono vieram hoje. Deve ser o frio, corujas não gostam do frio, não sei onde, mas lembro-me de ter lido isto em algum lugar. Será? Fecho a janela e olho para a minha mesa onde a luminária emite o único facho de luz que percorre o quarto. Papéis espalhados, canetas, algumas fotos, farelos de biscoito maizena. Preciso arrumar minha mesa.
Olho para minha cama desarrumada, pronta para que eu me deite nela. Parece que ela me chama, com aquele olhar provocante e malicioso e sussurra para mim palavras inconfundíveis de amor. Fico parado por um tempo, observando, e me preparo num ritual quase de núpcias para me deitar e sentir todo aquele calor. Após alguns minutos, já embalado pelo clima do momento, me atiro de encontro a ela... Argh! O colchão está gelado. Amanhã vou ter de tomar algumas providências. Eu estou mesmo ficando louco!
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